As fases do desenvolvimento Psicossexual

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O artigo que ora apresentamos, tem como propósito levar ao conhecimento do leitor e, de forma muito especial, para os pais de “primeira viagem”, que acabaram de ter filhos e não tem experiência alguma. em lidar com esta nova situação familiar, com a chegada do mais novo componente, uma criança. Em sua abordagem, iremos apresentar de forma superficial, um dos temas principais em que Sigmund Freud, médico e psicanalista do passado, dedicou boa parte de sua vida, pesquisando sobre as fases do desenvolvimento psicossexual do ser humano, em especial, com as crianças.

Desde os tempos antigos, muitos cientistas e estudiosos buscaram entender como se dava o processo de desenvolvimento do ser humano, principalmente em relação ao ensino e a aprendizagem, como também, acerca de sua sexualidade. Descobriu-se num primeiro momento, que a criança é um ser sexuado, ou seja, ela possui sexo (macho e fêmea). Sendo assim, muitas foram às pessoas que se interessaram em pesquisar sobre esta nova temática, a sexualidade humana.

Outra descoberta importante desta primeira investigação, deu conta de que essa aprendizagem possuía uma estreita ligação com a dimensão psicológica do homem. Buscou-se então, uma tentativa de compreender melhor a relação e a influência que poderia existir no processo de ensino e aprendizagem integral desse ser em plena formação e desenvolvimento. Embora de forma abreviada, o artigo irá apresentar como se processa normalmente a manifestação da sexualidade do ser humano e o seu desdobramento, principalmente pela influência recebida dentro de seu contexto social (dentro de casa, com sua família) e no local de sua maior convivência e/ou permanência social, como na escola, na rua, em casa de parentes, entre outros lugares ou ambientes sociais.

Sabemos que o primeiro grupo social em que a criança interage e se relaciona, volta-se praticamente para a sua família e, de uma forma muito especial, com a sua mãe. Porém, com o passar dos anos, tem surgido novos núcleos familiares que foram se configurando por décadas e mais décadas. E mesmo com esta nova configuração familiar e social, continua surgindo diversas modificações. E é neste novo núcleo social que a criança estará totalmente inserida e, provavelmente será nele, que ela irá passar a formar a sua identidade.

Esse é o grande desafio das famílias (pais e responsáveis), da escola (professores, pedagogos etc.) e da sociedade como um todo, que devem trabalhar toda esta diversidade de princípios e valores morais, costumes, hábitos, crenças e tabus, para ampliar o universo inicial da criança, criando possibilidades para a sua boa convivência com o outro, mesmo apresentando hábitos e costumes totalmente distintos.

 

  1. AS FASES DO DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL

 

Como dissemos na introdução, as fases que serão apresentadas aqui, foram aquelas descobertas e defendidas por Freud, em seu estudo aprofundado por longos anos, sobre como era apresentada a sexualidade nos seres humanos (desde criança). Esse seu estudo e descoberta, teve muita serventia e influência à época, perdurando até os nossos dias e trazendo o entendimento sobre como se desenvolve esse processo sexual humano. Ele foi dividido e apresentado por fases de desenvolvimento psicossexual, conforme serão apresentados a seguir:

 

2.1 Fase Oral (0 a 1 Ano):

 

Ela também é conhecida como fase das organizações ou fase canibalesca. Caracterizada por uma indistinção da atividade sexual com a nutrição e na qual o alvo sexual é a incorporação do objeto. A fase oral indica a fonte primária de prazer do ser humano, da emoção e de contato com o mundo através da boca. Este prazer é originado pelas atividades de alimentação e se desenvolve através da ligação entre o mamar e a satisfação decorrente deste ato.

Por isso, nesta fase, é muito comum a criança pegar tudo que vê e levar a boca. Não é à toa que os brinquedos tem uma classificação por faixa etária, pois dependendo do seu tamanho, a criança pode vir a se engasgar ou apresentar outros tipos de problemas (intoxicação, alergia etc.).

 

2.2   Fase Anal (1 a 3 Anos):

 

O modo de obter prazer nesta fase infantil, se expressa por atividades de controle da retenção e de eliminação das fezes e da urina. As crianças, dão muita importância as suas fezes, uma vez que apresentam o primeiro bem material produzido pelo seu próprio corpo e pelo controle dos esfíncteres[1]. Este ato é muito enfatizado pelos pais, onde as crianças por sua vez, controlam o comportamento de seus pais, ora com uma defecação adequada, ora com a inadequação do controle esfincteriano.

 

2.3   Fase Fálica (3 a 6 Anos):

 

Ela é marcada pela primazia dos órgãos genitais. Freud menciona algumas fontes de excitação que provocam um prazer erógeno (parte ou região do corpo em que o contato pode causar sensações ou estímulos sexuais): excitações mecânicas (agitação ritmada do corpo pelo movimento), atividade muscular (como lutas corporais), processos afetivos intensos (situações assustadoras, situações de dor, inclinam-se para a sexualidade) e o trabalho intelectual.

A criança toma consciência das diferenças anatômicas sexuais, que desencadeiam o conflito entre atração erótica, ressentimento, rivalidade, ciúme e medo. Sigmund Freud denominou-a de complexo de Édipo (nos meninos), e complexo de Electra (nas meninas). Explicaremos os dois tipos, mas de uma forma bem simples:

No menino, o conflito de Édipo surge porque ele desenvolve desejos sexuais para com sua mãe. Com isso, ele começa a disputa-la com seu pai. Ele quer exclusividade e, assim, deseja (inconscientemente) se livrar do pai para que possa ser atendido nesse desejo. Por isso, nesta fase, o menino costuma supervalorizar (amar mais) o seu pênis. Dito com outras palavras, a mãe é o objeto de seu desejo sexual e o seu pai é o rival que impede seu acesso ao objeto por ele desejado (a sua mãe). Ele procura assemelhar-se ao pai, buscando imitá-lo em tudo para “ter” a mãe, escolhendo-o como modelo de comportamento.

Na menina, o Complexo de Electra se dá, em que ela deseja o seu pai, mas percebe que ela não tem um pênis igual ao dele. Isso, segundo esta teoria, leva ao desenvolvimento da inveja do pênis e ao desejo de ser “igual” ao menino. Ela resolve isso reprimindo o seu desejo pelo pai e substituindo este desejo por um pênis (…). A menina (inconscientemente) culpa a sua mãe por seu “estado de castração”, surgindo uma grande tensão. Então, ela costuma reprimir os seus sentimentos (para remover a tensão) e começa a se identificar com a sua mãe, para assumir o papel de gênero feminino.

 

2.4   Período de latência (6 anos á Puberdade):

 

É uma fase mais calma, compreendida entre os 5 e 10 anos de idade que, segundo Freud, não é uma verdadeira fase, pois não há nova organização de zona erógena, não há organização de fantasias básicas e nem novas modalidades das relações objetais. Nessa fase ocorre à socialização nos aspectos cognitivos e morais do desenvolvimento, nas atividades escolares, nos esportes competitivos, nas brincadeiras com o grupo de iguais e o desejo do saber serão alvos da energia libidinal[2].

É um período intermediário entre a genitalidade infantil (fase fálica) e a adulta (fase genital). Nela a sexualidade permanece adormecida, mas as grandes conquistas dessa etapa situar-se-ão nas realizações intelectuais e na socialização (interação social). Por isso que este é o período típico do início da escolaridade formal ou da profissionalização em todas as culturas do mundo.

É na latência que a ligação afetiva com os pais vai se deslocando para fora da família, havendo a substituição dos progenitores, por exemplo, em direção aos professores (as tias e tios) e os amigos do mesmo sexo.

Os complexos (de Édipo e Electra), vão perdendo força e, por medo de perder o pai, o menino “desiste” da mãe, que é substituída ou “trocada” pela riqueza do mundo social e cultural, podendo agora participar do mundo social, pois tem suas regras internalizadas através da identificação com o pai. Este mesmo processo ocorre também com as meninas, invertendo-se as figuras do desejo e de sua identificação.

 

2.5   Fase Genital (ou Puberdade):

 

Esta fase é a etapa do desenvolvimento psicossocial que ocorre dentro da adolescência, indo do início da puberdade até a fase adulta. Nela os sinais mais evidentes dessa passagem se mostram dentro do amadurecimento dos sistemas hormonais, trazendo mudanças físicas (corporais) e mentais (ideias e pensamentos). Graças a isso que os impulsos se tornam mais intensos, especialmente os de cunho sexual.

Nela, as pulsões parciais se organizam e as zonas erógenas passam a se subordinar à primazia genital e a pulsão sexual (a libido) que era, principalmente, autoerótica (libido do ego ou narcísica). Elas buscam o objeto sexual a serviço da função reprodutora (libido do objeto). Freud salienta que tais transformações acontecem simultaneamente às mudanças físicas da puberdade (em especial as alterações dos órgãos genitais), que proporcionam a obtenção do prazer e de satisfação da atividade sexual.

Todas as mudanças da puberdade culminam numa diferenciação sexual cada vez maior, já que os dois sexos terão funções distintas. Vale pontuar, que Freud faz um questionamento sobre o que seria masculino e feminino, defendendo a complexidade destes conceitos (noção de bissexualidade) e acabou privilegiando a noção de passividade e atividade. A partir daí, afirma que a libido é masculina, já que a pulsão é sempre ativa.

Apesar da dificuldade em distinguir o masculino de feminino, ele deixou claro que existe uma diferença entre a puberdade da menina e a do menino. As zonas erógenas seriam homólogas (clitóris e glande pênis), mas enquanto o homem permanece com a mesma zona erógena de sua infância, a mulher transfere a excitabilidade clitoridiana para a vagina, realizando uma troca da zona genital dominante. Estas mudanças deixariam as mulheres mais propensas à neurose histérica.

Outro aspecto levantado por Freud, é que na puberdade ocorre um afrouxamento dos laços com a família (e um desligamento da autoridade dos pais), já que a proibição do incesto (relação sexual entre familiares) empurra o jovem a procurar objetos sexuais que não sejam seus parentes. Inicialmente, estes objetos sexuais são da ordem da fantasia, por exemplo, escutar a relação sexual de seus pais, da sedução, da ameaça de castração, romance familiar, entre outros.

Quando essas transformações da pulsão, ocasionadas pelo advento da puberdade, não ocorrem, é comum surgirem algumas patologias (inibições no desenvolvimento). Freud destaca a fixação como um fator que pode atrapalhar o desenvolvimento sexual normal. Ele acrescenta a isso, a importância de fatores acidentais que podem levar a uma regressão a fases anteriores do desenvolvimento. “Cada passo nesse longo percurso de desenvolvimento pode transformar-se num ponto de fixação, cada ponto de articulação nessa complexa montagem pode ensejar a dissociação da pulsão sexual”.

Freud finaliza seu trabalho dizendo que os conhecimentos sobre a sexualidade (em seus aspectos psicobiológicos) ainda são insuficientes para uma compreensão total do que é normal e patológico. Como ele não observou diretamente manifestações sexuais em crianças, sua rica descoberta e teoria é apoiada apenas nas lembranças de seus pacientes.

 

Conclusão

 

Não resta nenhuma dúvida, de que os estudos e as pesquisas freudianas foram e são até os dias de hoje, de uma riqueza e dimensão gigantesca para a compreensão do processo de iniciação da aprendizagem como um todo, principalmente sobre a sexualidade infantil e o nível de conhecimento adquirido pelo ser humano no decorrer dos anos.

Foi de vital importância conhecer, que muitas de nossas motivações são processadas inconscientemente e que o desenvolvimento da sexualidade infantil, geralmente se dá de uma forma espontânea. Por isso, temos que dar maior relevância aos primeiros anos de vida de nossas crianças, para que possa haver uma melhor estruturação de sua personalidade.

Freud descobriu a existência de um ser muito complexo, bem como a descoberta de que este ser era dotado de um grande conhecimento intelectual. Através de seus vários estudos e pesquisas, pode-se afirmar que tanto a sexualidade como o processo de civilização humana é algo que ocorre de forma natural, e que se fará presente na vida de qualquer ser humano. Mas não podemos esquecer que a criança “não é um adulto em miniatura”, como muitas pessoas dizem por aí, pois não é!

Precisamos rever nossos conceitos, valores e opiniões, para entender que a criança irá apresentar de forma natural e espontânea a sua sexualidade. E que tudo isso irá decorrer de seu desenvolvimento familiar e social, pois estará confirmando estar em plena fase de desenvolvimento e em diversas áreas de sua vida, tanto a motora, biológica, psicológica e a social.

 

REFERÊNCIAS

 

CECHIN, Andréa Forgiarini. Teoria Psicanalítica. Universidade Federal de Santa Maria. (material fornecido pelo Professor Gilvandro Salles).

 

FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1856-1939), Tradução de Paulo Dias Corrêa – Rio de Janeiro: Imago; 2002. (Versão eletrônica do livro “Crítica da Razão Pura”. Autor: Emmanuel Kant. Tradução: J. Rodrigues de Merege).

 

 

[1] Esfíncteres. É um músculo que controla a abertura e o fechamento de um determinado orifício. Esse desenvolvimento da criança que possibilita o controle corporal para conseguir reter por algum tempo o desejo de evacuar ou urinar denomina-se controle dos esfíncteres.

[2] Libidinal. Relativo à libido. Refere-se ao desejo sexual intenso ou à busca instintiva e natural pelo prazer sexual.

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