“MENS SANA IN CORPORE SANO”

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Eduardo Veronese da Silva[1]

 

Resumo: o título dado a este artigo é muito sugestivo, uma vez que o propósito de apresentá-lo, será focado em pessoas que viveram em séculos anteriores, mas que tiveram a curiosidade de estudar profundamente como ocorreu o processo de formação e desenvolvimento dos seres humanos, especialmente sobre o aspecto mental (sua psique) com seus diversos pensamentos e as suas ações diárias (conduta e comportamento) diante do ambiente social. Portanto, em um primeiro momento, listaremos alguns nomes de estudiosos com suas importantes descobertas, depois continuaremos com a abordagem, enfatizando dois desses pesquisadores do passado e, por fim, concluiremos com algumas descobertas mais recentes, visando a informação do surgimento de certas patologias ou neuroses, decorrentes de mau funcionamento ou interferência na transmissão de mensagens cerebrais, para chegar à sua execução no nível corporal.

Palavras-chave: cérebro – mente – corpo – funcionamento e patologias.

 

Abstract:  the title given to this article is very suggestive, given that the purpose of presenting it, will be focused on people who lived in previous centuries, but who had the curiosity to study deeply how the process of formation and development of human beings occurred, especially at the mental level (their psyche) with their various thoughts and their daily actions (conduct and behavior) before the social environment. Therefore, at first, we will list some names of scholars with their important discoveries, we will continue with the approach emphasizing two of these researchers of the past and conclude with some more recent discoveries, aimed at the emergence of certain pathologies or neuroses, arising from malfunction or interference in the transmission of brain messages, to reach their execution at the body level.

Keywords: brain – mind – body – functioning and pathologies.

 

Introdução

 

Desde muitos séculos, várias foram as pessoas que levantaram algumas hipóteses de que havia uma forte e estreita relação entre o funcionamento cerebral humano (psiquê, mente) e o seu próprio corpo (movimentos corporais, funcionamento de seus órgãos). E a partir destas primeiras suspeitas, médicos, cientistas, filósofos e estudiosos das mais diversas áreas e especialidades, começaram a se aprofundar em estudos e pesquisas para tentar descobrir se isso realmente era verdade.

E, se realmente fosse, como ocorria esse mecanismo a nível cerebral, para enviar as ordens ou mensagens de comando para serem executadas pelo “corpo”? Em outras palavras, como se dava este processo cérebro-corporal no cotidiano dos seres humanos? Simultaneamente, se esta relação viria a influenciar de forma positiva (ou negativamente) para a sua saúde física e mental? Portanto, vale ressaltar que o título dado a este artigo científico, faz menção a uma parte da citação latina da Sátira X, escrita pelo poeta romano Juvenal[2], provavelmente datada entre o final do Século I e o início do Século II.

 

Neste sentido, achamos interessante inserir abaixo, para o conhecimento do leitor, a citação completa feita pelo poeta romano:

 

Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são (sublinhamos).

Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte,

que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos da natureza,

que suporte qualquer tipo de labores,

desconheça a ira, nada cobice e creia mais nos labores selvagens de Hércules do que

nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de um rei oriental.

Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio;

Certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.

 

A esta frase sublinhada, foi apresentado à época, um sentido literal e original dado por seu autor, Juvenal, que preconizou sobre a necessidade do ser humano estar com a mente (“espírito”) em total equilíbrio, para que o seu próprio corpo também esteja equilibrado. E se assim ocorresse, poderíamos ter a capacidade de evitar desequilíbrios cérebro-hormonais, pois, caso contrário, toda a funcionalidade cerebral poderia sofrer disfunções ou alterações diversas. E, com isso, poderia resultar no surgimento de várias patologias, possíveis sequelas e, também, alguns traumas, tanto a nível mental (psicológico) como no aspecto físico (funcionamento corporal).

Por isso, tivemos a ideia de intitular este artigo com esta frase antiga, mas de grande conhecimento tanto na área cientifica como no meio popular. E ela traz o entendimento de que: “Se a mente humana estiver em total equilíbrio, grande é a possibilidade de que o corpo desta mente também esteja equilibrado”. Geralmente, quando uma doença se manifesta corporalmente em nós, o que na verdade sentimos em nosso corpo, é o resultado reativo de uma causa previamente já existente em nossa mente ou em nosso subconsciente.

Dito de outra forma, consciente ou inconscientemente, somos nós que geramos a doença que se instala em nosso corpo físico (em seus órgãos). O que significa dizer ou afirmar, que “quase” tudo o que acontece com o nosso corpo físico (dores de cabeça, enxaquecas, problemas estomacais, etc.), nada mais é do que o reflexo de nossa mente que captou energias ruins (ou boas), jogando-as para as várias partes de nosso corpo, vindo a ocasionar algum tipo de patologia[3].

Portanto, todos esses estudos que foram iniciados no passado, com os avanços e as descobertas que foram sendo adquiridas pelos pesquisadores, trouxeram-nos o conhecimento de que temos a capacidade de transmutar a doença em saúde. Mas para que isso aconteça, precisamos manter o equilíbrio do nosso “Eu Interno”, ou seja, a nossa mente, os nossos pensamentos e as nossas emoções.

 

  1. Precursores e Pesquisadores da Mente Humana.

 

Se quiséssemos, poderíamos escrever muitas e muitas páginas acerca dos homens que iniciaram estudos e pesquisas para se descobrir algo mais sobre a estrutura e funcionalidade da mente humana. Entretanto, iremos listar alguns nomes que reputamos como de grande relevância, principalmente por terem investigado as suas primeiras hipóteses e acabaram trazendo informações e resultados importantes para que outros estudiosos checassem e, se quisessem,  poderiam avançar ainda mais acerca destas descobertas.

Antes mesmo de nomeá-los, gostaríamos de ressaltar que uma das primeiras descobertas a nível humano-científico, deu-se por volta de 130.000 anos antes de Cristo (a.C.), com a descoberta do homo sapiens neanderthalensis. Depois de passados alguns anos, entre 30.000 a 35.000 a.C., descobriu-se o homo sapiens sapiens. E com o avançar do tempo, novas descobertas foram sendo feitas acerca da vida humana na terra. Entre elas, destaca-se que por volta de 7.000 a 20.000 anos a.C., foram achados vários crânios trepanados, ou seja, com algumas perfurações.

Segundo pesquisa histórica feita por nós, através da internet, descobrimos que a trepanação cranial, foi uma técnica ou um procedimento médico antigo, em que se perfurava o crânio da pessoa sem qualquer tipo de anestesia, utilizando-se de um instrumento pontiagudo e perfurante (tipo uma broca), para tirar as “energias ruins” ou até curar certas “doenças mentais”, principalmente a loucura e a epilepsia. Pasmem! mas isso realmente aconteceu e perdurou por um bom tempo[4].

A partir de então, muito tempo depois destas primeiras descobertas, começaram a surgir novas pessoas e estudiosos interessados pelo assunto. Neste caso, apresentaremos algumas delas com as suas hipóteses e os resultados de seus estudos e pesquisas.

 

. Edwin Smith: Foi descoberto no Egito, um papiro de sua autoria. E isto se deu por volta do ano de 1.700 a.C. com a descrição clínica de 48 (quarenta e oito) casos, onde se relacionava a descoberta sobre o encéfalo, as meninges, o líquor[5] e a medula.

. Filósofo Pitágoras: por volta dos anos 580-510 a.C., fez seus estudos e pesquisas acerca do encéfalo (mente), coração, almas e as sensações humanas.

. Filósofo Hipócrates: por volta dos anos 460-370 a.C., defendeu sua tese ao dizer que a epilepsia era um distúrbio que tinha origem no encéfalo, que é a sede da inteligência e das sensações.

. Filósofo Platão: por volta dos anos 427-347 a.C., defendeu que o problema que ocorre no corpo e na alma, denominado por ele como “cefalocentrista”, onde o encéfalo é a sede do processo mental e a alma humana apresenta-se em sua forma tríplice: 1. Coração: alma afetiva; 2. Cérebro: alma intelectual e; 3. Ventre: apetite sexual.

. Filósofo Aristóteles: por volta dos anos 384-322 a.C., defendeu que o coração era o centro das atenções, emoções e paixões humanas. E que o encéfalo tinha uma função refrigeradora do corpo e da alma.

. Cláudio Galeno: por volta dos anos 129-200 a.C., defendeu a tese de que o cérebro humano era formado de duas partes: a parte anterior (cérebro), que é responsável pelas sensações e pelo repositório da alma. A outra parte (cerebelo) que é responsável pelo controle muscular.

. Renê Descartes: ele viveu entre os anos de 1596-1650. Sua frase ficou famosa à época e perpassou a barreira temporal, sendo invocada até em nossos dias: “Je pense, donc je suis”, traduzida para o nosso português – “Penso, logo existo”. Ele definiu a alma humana como sendo consciente e restabeleceu a ontologia dualista do ser humano: Alma e Corpo.

. Sigmund Freud: médico e criador da psicanálise. Basicamente, seus estudos e pesquisas pautaram-se em descobrir como se dava o desenvolvimento psicossexual dos seres humanos, e em especial, nas crianças. E, neste aspecto, vale a pena descrever de forma resumida, como que estas fases de desenvolvem.

 

  1. Sigmund Freud e as Fases do Desenvolvimento Psicossexual:

 

Embora esta abordagem seja apresentada de forma abreviada, iremos descrever como se processa normalmente a manifestação da educação sexual do ser humano e o seu desdobramento, principalmente pela influência recebida dentro de seu contexto social (com sua família) e no local de sua maior convivência, quer seja na escola, na rua, na casa de parentes e em outros ambientes sociais.

É sabido por todos, que o primeiro grupo social em que a criança interage e se relaciona, volta-se praticamente para a sua família e, de uma forma muito especial, com a sua mãe. Porém, com o passar dos anos, vieram surgindo novos núcleos familiares que foram se configurando por décadas e mais décadas. E mesmo com esta nova configuração familiar e social, continua surgindo novas e diversas modificações. E é neste novo núcleo social que a criança estará totalmente inserida e, provavelmente será nele também, que ela irá passar a formar a sua própria identidade.

E esse é o grande desafio das famílias (pais e responsáveis), da escola (professores, pedagogos etc.) e da sociedade como um todo, que deve trabalhar toda esta diversidade de princípios e valores morais, costumes, hábitos, crenças e tabus, para ampliar o universo inicial desta criança, criando possibilidades para a sua boa convivência com o próximo, mesmo apresentando hábitos e costumes totalmente distintos.

Freud, depois de muito estudo, observação e pesquisas, apresentou-as publicamente denominando-as como as fases do desenvolvimento psicossexual. Seu foco de estudo, deu-se acerca da sexualidade dos seres humanos, principalmente nas faixas etárias inicias de sua vida. Esse seu estudo e descoberta, teve muita serventia e influência à época, perdurando até os nossos dias e trazendo o entendimento de como se desenvolve esse processo sexual humano. Como dissemos, ele foi dividido e apresentado por fases, como veremos a seguir:

 

2.1 Fase Oral (0 a 1 Ano):

 

Ela também é conhecida como fase das organizações ou fase canibalesca. Caracterizada por uma indistinção da atividade sexual com a nutrição e na qual o alvo sexual é a incorporação do objeto. A fase oral indica a fonte primária de prazer do ser humano, da emoção e de contato com o mundo através da boca, sua zona erógena. Este prazer é originado pelas atividades de alimentação e se desenvolve através da ligação entre o mamar e a satisfação decorrente deste ato. Por isso, nesta fase, é muito comum a criança pegar tudo que vê e levar a boca. Não é à toa que os brinquedos tem uma classificação por faixa etária, pois dependendo do seu tamanho, a criança pode vir a se engasgar ou apresentar outros tipos de problemas (intoxicação, alergia etc.).

 

2.2   Fase Anal (1 a 3 Anos):

 

O modo de se obter prazer nesta fase infantil, se expressa por atividades de controle da retenção e de eliminação das fezes e da urina, sua zona erógena é o reto ou ânus. As crianças, dão muita importância as suas fezes, uma vez que apresentam o primeiro bem material produzido pelo seu próprio corpo e pelo controle dos esfíncteres. Este ato é muito enfatizado pelos pais, onde as crianças por sua vez, controlam o comportamento de seus pais, ora com uma defecação adequada, ora com a inadequação do controle esfincteriano.

 

 2.3   Fase Fálica (3 a 6 Anos):

 

Ela é marcada pela primazia dos órgãos genitais, sua zona erógena. Freud menciona algumas fontes de excitação que provocam um prazer (parte/região do corpo em que o contato pode causar sensações ou estímulos sexuais): excitações mecânicas (agitação ritmada do corpo pelo movimento), atividade muscular (como lutas corporais), processos afetivos intensos (situações assustadoras, situações de dor, inclinam-se para a sexualidade) e o trabalho intelectual. A criança toma consciência das diferenças anatômicas sexuais, que desencadeiam o conflito entre atração erótica, ressentimento, rivalidade, ciúme e medo. Freud denominou-a de complexo de Édipo (nos meninos), e complexo de Electra (nas meninas). Explicaremos os dois tipos, mas de uma forma bem simples:

. No menino, o conflito de Édipo surge porque ele desenvolve desejos sexuais por sua mãe. Com isso, ele começa a disputa-la com seu pai. Ele quer exclusividade e, assim, deseja (inconscientemente) se livrar do pai para que possa ser atendido em seu desejo. Por isso, nesta fase, o menino costuma supervalorizar (amar mais) o seu pênis. Dito com outras palavras, a mãe é o objeto de seu desejo sexual e o seu pai é o rival que impede seu acesso ao objeto por ele desejado. Ele procura assemelhar-se ao pai, buscando imitá-lo em tudo para “ter” a mãe, escolhendo-o como modelo de comportamento.

. Na menina, o Complexo de Electra se dá, em que ela deseja o seu pai, mas percebe que ela não tem um pênis igual ao dele. Segundo a teoria, isso leva ao desenvolvimento do sentimento de inveja do pênis e o desejo de ser “igual” ao menino. Ela resolve isso reprimindo o seu desejo pelo pai e substituindo este desejo por um pênis (…). A menina (inconscientemente) culpa a sua mãe por seu “estado de castração”, surgindo uma grande tensão. Então, ela costuma reprimir os seus sentimentos (para remover a tensão) e começa a se identificar com a sua mãe, para assumir o papel de gênero feminino.

 

2.4   Período de latência (6 anos á Puberdade):

 

É uma fase mais calma, compreendida entre os 6 e 11 anos[6] de idade que, segundo Freud, não é uma verdadeira fase, pois não há nova organização de zona erógena, não há organização de fantasias básicas e nem novas modalidades das relações objetais. Nessa fase ocorre à socialização nos aspectos cognitivos e morais do desenvolvimento, nas atividades escolares, nos esportes competitivos, nas brincadeiras com o grupo de iguais e o desejo do saber serão alvos da energia libidinal.

É um período intermediário entre a genitalidade infantil (fase fálica) e a adulta (fase genital). Nela a sexualidade permanece adormecida, mas as grandes conquistas dessa etapa situar-se-ão nas realizações intelectuais e na socialização (interação social). A zona erógena nesta fase não é o seu próprio corpo, mas o mundo físico e social. Por isso que este é o período típico do início da escolaridade formal ou da profissionalização em todas as culturas do mundo. É na latência que a ligação afetiva com os pais vai se deslocando para fora da família, havendo a substituição dos progenitores, por exemplo, em direção aos professores (as tias/tios) e os amigos do mesmo sexo. Os dois complexos vão perdendo força e, por medo de perder o pai, o menino “desiste” da mãe, que é substituída ou “trocada” pela riqueza do mundo social e cultural, podendo agora participar do mundo social, pois tem suas regras internalizadas através da identificação com o pai. Este mesmo processo ocorre também com as meninas, invertendo-se as figuras do desejo e de sua identificação.

 

 

2.5   Fase Genital (ou Puberdade):

 

Esta fase é a etapa do desenvolvimento psicossexual que ocorre dentro da adolescência, indo do início da puberdade até a fase adulta. Nela os sinais mais evidentes dessa passagem se mostram dentro do amadurecimento dos sistemas hormonais, trazendo mudanças físicas (corporais) e mentais (ideias/pensamentos). Graças a isso que os impulsos se tornam mais intensos, especialmente os de cunho sexual. Nela, as pulsões parciais se organizam e as zonas erógenas passam a se subordinar à primazia genital e a pulsão sexual (a libido) que era, principalmente, autoerótica (libido do ego/narcísica). Elas buscam o objeto sexual a serviço da função reprodutora (libido do objeto).

Freud salienta que tais transformações acontecem simultaneamente às mudanças físicas da puberdade (em especial, alterações dos órgãos genitais), que proporcionam a obtenção do prazer e satisfação da atividade sexual. Todas as mudanças da puberdade culminam numa diferenciação sexual cada vez maior, entre o menino e a menina, já que os dois sexos terão funções distintas. Vale pontuar, que Freud faz um questionamento sobre o que seria o masculino e o feminino, devido, segundo ele, a complexidade destes conceitos (noção de bissexualidade). A partir daí, ele afirma que a libido é masculina, já que a pulsão é sempre ativa. Apesar de ter destacado a dificuldade em distinguir o masculino do feminino, Freud deixou claro que existe uma diferença entre a puberdade da menina e a do menino. As zonas erógenas seriam homólogas, muito semelhantes (na menina, o clitóris; no menino, a glande do pênis). Mas enquanto o homem permanece com a mesma zona erógena de sua infância, a mulher transfere a excitabilidade clitoridiana para a vagina, realizando uma troca da zona genital dominante. Estas mudanças deixariam as mulheres mais propensas à neurose histérica.

Outro aspecto levantado por Freud, é que na puberdade ocorre um afrouxamento dos laços com a família (desligamento da autoridade dos pais), já que a proibição do incesto (relação sexual entre familiares) empurra o jovem a procurar objetos sexuais que não pertençam ao seu parentesco. Inicialmente, estes objetos sexuais são da ordem da fantasia, por exemplo, escutar a relação sexual de seus pais, da sedução, ameaça de castração, romance familiar, entre outros.

Quando essas transformações da pulsão, ocasionadas pelo advento da puberdade, não ocorrem, é comum surgirem algumas patologias (inibições no desenvolvimento).

Freud destaca a fixação como um fator que pode atrapalhar o desenvolvimento sexual normal. Ele acrescenta a isso, a importância de fatores acidentais que podem levar a uma regressão a fases anteriores do desenvolvimento. “Cada passo nesse longo percurso de desenvolvimento pode transformar-se num ponto de fixação, cada ponto de articulação nessa complexa montagem pode ensejar a dissociação da pulsão sexual”.

Ele encerra o seu trabalho, dizendo que os conhecimentos sobre a sexualidade (em seus aspectos psicobiológicos) ainda são insuficientes para uma compreensão total do que é normal e o que é patológico. Como ele não observou diretamente manifestações sexuais em crianças, sua rica descoberta e teoria é apoiada apenas nas lembranças de seus pacientes.

 

  1. Jean Piaget e sua Teoria da Psicogênese:

 

Este foi outro incansável estudioso e pesquisador sobre o ensino e a aprendizagem dos seres humanos. Ele foi um renomado psicólogo e filósofo suíço, conhecido por seu trabalho pioneiro no campo da inteligência infantil. Passou grande parte de sua carreira profissional interagindo com crianças e estudando seu processo de raciocínio (ensino/aprendizagem). Seus estudos tiveram um grande impacto sobre os campos da Psicologia e da Pedagogia.

Para ele, a criança (mente infantil) interage e reage as circunstâncias que estão em seu entorno, vindo a dar respostas apropriadas no decorrer desta interação. Para tanto, ele afirma de que o ensino-aprendizagem demanda um período de tempo, e ele somente irá ocorrer se houver a participação ativa do aluno (aprendiz/discente). Ele, de forma parecida com a adotada por Freud, dividiu o desenvolvimento cognitivo e afetivo das crianças em estágios. Ele identificou quatro estágios de evolução mental de uma criança.

Segundo ele, cada estágio é um período onde o pensamento e o comportamento infantil é caracterizado por uma forma específica de conhecimento e raciocínio. Esses quatro estágios são: sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e operatório formal. De forma suscinta, passemos a conhecê-los:

 

3.1 – Estágio Sensório-motor (0 a 18 meses/2 anos)[7]:

 

Neste estágio, que dura do nascimento da criança até o 18º mês de vida, a criança busca adquirir controle motor e aprender sobre os objetos físicos que a rodeiam. Ele se chama sensório-motor, pois o bebê adquire o conhecimento por meio de suas próprias ações que são controladas por informações sensoriais imediatas.

 

3.2 – Pré-operatório (2 a 7 anos)[8]:

 

No estágio pré-operatório, que dura do 18º mês aos 7/8 anos de vida, a criança busca adquirir a habilidade verbal. Nesse estágio, ela já consegue nomear objetos e raciocinar intuitivamente, mas ainda não consegue coordenar operações fundamentais.

 

3.3 – Operatório Concreto (7 a 11 anos):

 

Neste estágio, que dura dos 7/8 anos até os 11/12 anos de vida, a criança começa a lidar com conceitos abstratos como os números e relacionamentos. Esse estágio é caracterizado por uma lógica interna consistente e pela habilidade de solucionar problemas concretos.

 

3.4 – Operatório Formal (11 a 15 anos ou mais):

 

No estágio operatório formal, desenvolvido entre os 11/12 anos e vai até os 15 anos de idade, a criança começa a raciocinar lógica e sistematicamente. Ele é definido pela habilidade de engajar-se no raciocínio abstrato. As deduções lógicas podem ser feitas sem o apoio de objetos concretos. No estágio das operações formais, desenvolvido a partir dos 12 anos de idade, a criança inicia sua transição para o modo adulto de pensar, sendo capaz de pensar sobre ideias abstratas.

Embora as abordagens desses dois estudiosos pesquisadores, tenham sido desenvolvidas com diferentes vieses, ambas trouxeram grandes contribuições sobre a maneira de se entender como o ser humano inicia o seu processo de ensino e aprendizagem, desde a sua primeira infância (0 aos 5/6 anos). E de que este aprendizado e conhecimento adquirido por elas, se desenvolve de várias formas. Como escreveu Roney Cozzer ao citar Piaget: “(…) só se aprende a experimentar, tateando, por si mesmo, trabalhando ativamente (…), e dispondo de todo o tempo necessário”.

 

  1. A Fisiologia e Funcionalidade do Cérebro Humano:

 

Não podemos ter mais dúvidas, de que do bom funcionamento e equilíbrio cerebral, depende toda a nossa existência. Por isso, precisamos conhecer como é a estrutura interna do nosso cérebro e como se dá a funcionalidade de suas diversas áreas cerebrais. Ele é o organismo que nos possibilita desde o exercício do pensamento e do raciocínio, até o controle de todas as atividades desempenhadas pelo nosso corpo. Lembrando de uma coisa muito importante: são os nossos pensamentos que geram emoções e sentimentos e, também, que são estes mesmos sentimentos e emoções, que se transformam em nossas ações e atitudes.

Pensando um pouquinho sobre isso, surgiu o desejo em nossa mente (pensamento, psiquê) e no coração de estudar e escrever sobre esta máquina maravilhosa que precisa ser muito bem cuidada diariamente por todos nós – o cérebro humano. Passemos então, a conhecer a estrutura interna do cérebro humano, com cada uma de suas funções básicas e vitais, que acabam dando a boa ou má funcionalidade dos nossos movimentos (ações e locomoção) e demais atividades executadas e exercidas pelo corpo humano.

 

4.1 – Corpo Caloso: é uma estrutura formada pela união de diversas fibras mielínicas, que vão se cruzar no plano sagital do cérebro e penetrar no centro branco medular do mesmo, fazendo, então, a união dos dois hemisférios cerebrais (o direito e o esquerdo). Estima-se que o corpo caloso seja formado por cerca de 200 a 250 milhões de projeções axônicas. Segundo escreveu Daniela Longo[9], nele pode ser encontrado: tronco, joelho, esplênio, rostro e fórnix do corpo caloso. O tronco do corpo caloso, também é conhecido como corpo e corresponde a face superior de sua estrutura. Nele, nós conseguimos observar um sulco longitudinal.

O joelho do corpo caloso nada mais é do que a extremidade anterior do mesmo. Ele constitui a sua região mais afinada. O esplênio do corpo caloso é uma dilatação posterior do tronco do corpo caloso. Essa estrutura vai sofrer uma flexão em sua parte mais anterior (indo em direção à base cerebral) e vai formar o joelho do corpo caloso. O fórnix é outra estrutura muito importante de sua estrutura, que está associada ao corpo caloso. Ele é um conjunto de fibras, organizadas na forma de feixe e composto por duas metades: uma lateral e uma medial. Esses feixes são dispostos de maneira simétrica e as metades se unem entre si, por meio de um septo denominado de septo pelúcido.

Essa estrutura anatômica cerebral, possui importante papel no funcionamento de nosso organismo e na organização das informações que chegam até os hemisférios cerebrais. Dentre as funções mais importantes, podemos destacar como a principal o fato de que o corpo caloso irá facilitar a comunicação entre esses dois hemisférios do telencéfalo, de modo que, se o corpo caloso sofre alterações congênitas (que se manifesta espontaneamente), por exemplo, como na agenesia[10] de corpo caloso, a comunicação entre essas partes se torna praticamente impossível de ser realizada. Além dessa importante função, o corpo caloso também atua na designação de tarefas para os hemisférios, utilizando como modelo as suas programações. Há também estudos que mostram que o corpo caloso atua na movimentação dos olhos e participa ativamente desse processo. Ele faz isso através da coleta de algumas informações provenientes dos músculos dos olhos e da retina daquele indivíduo, e leva para os hemisférios cerebrais, aonde esses estímulos vão ser processados.

4.2 – Cerebelo: massa de matéria nervosa que forma a parte posterior do cérebro do homem e de outros vertebrados, situada anteriormente e acima da medula. Ele é a parte do encéfalo responsável pela manutenção do equilíbrio, pelo controle do tônus muscular e dos movimentos involuntários, bem como pela aprendizagem motora. Portanto, dependemos dele para andar, correr, pular, andar de bicicleta, entre outras coisas. Ele é formado por dois hemisférios cerebelares e uma parte central. A ingestão excessiva e contínua de bebidas alcoólicas, pode fazer apresentar sinais de ataxia em seus usuários, vindo alterar a sua fala (descoordenação muscular), desequilíbrio (movimentos cambaleantes), redução da força muscular, tremor e fadiga.

4.3 – Lobo Frontal: como pode ser visto na figura acima e principalmente na anterior, ele fica localizado na parte da frente do cérebro (na testa), onde acontece o planejamento de ações e de movimento, bem como o pensamento abstrato. Nele estão incluídos o córtex motor e o córtex pré-frontal. O córtex motor controla e coordena a motricidade voluntária, sendo que o córtex motor do hemisfério direito controla o lado esquerdo do corpo do indivíduo, enquanto que o do hemisfério esquerdo controla o lado direito. Um trauma nesta área pode causar fraqueza muscular ou paralisia.

Enquanto que a aprendizagem motora e os movimentos de precisão são executados pelo córtex pré-motor (pré-frontal), que fica mais ativa do que o restante do cérebro quando se imagina um movimento sem executá-lo. Lesões nesta área não chegam a comprometer a ponto do indivíduo sofrer uma paralisia ou problemas para planejar ou agir, no entanto a velocidade de movimentos automáticos, como a fala e os gestos, é perturbada[11].

4.4 – Lobo Parietal: uma lesão nesta região cerebral, poderia nos impedir de conseguir vestir um vestido ou uma camisa. Esta área de nosso cérebro é de fundamental importância para interagir com tudo que nos rodeia. O neurologista David Eagleman, explica em ‘Incógnito – As vidas secretas do cérebro”, um de seus livros, que cada um de nós não percebe as coisas como elas realmente são. Nós vemos a realidade como o nosso cérebro quer[12]. O lobo parietal é aquela área de integração onde passa boa parte da informação do restante das regiões cerebrais. É ele quem organiza, quem nos permite sentir e compreender a realidade que nos rodeia.

 

“O que aconteceria se eu lhe dissesse que o mundo ao seu redor, com suas cores ricas, texturas, sons e cheiros, é uma ilusão, um espetáculo que o seu cérebro cria para você? Se você pudesse perceber a realidade como ela é, ficaria surpreso com o seu silêncio incolor, inodoro e insípido. Fora do seu cérebro, há apenas energia e matéria”. (David Eagleman – O Cérebro).

Vale ressaltar, como ficou bem destacado nas figuras anteriores, que o nosso cérebro é dividido em diferentes regiões. E o lobo parietal é uma das maiores e fica perto do topo, bem no centro do córtex cerebral. Na frente dele está o lobo frontal e um pouco mais abaixo estão os lobos occipital e temporal.

 

4.5 – Lobo Occipital:

 

A nossa compreensão do mundo é baseada quase exclusivamente no sentido da visão. E o lobo occipital processa os estímulos visuais de forma permanente, analisando distâncias, formas, cores, movimentos etc. Tudo que chega através da retina passa por esse centro de análise e todo este processamento, em seguida, envia as informações para o córtex cerebral. No entanto, essa transferência de informações deve primeiro passar por uma série de áreas, que são as seguintes[13]:

 

. Área visual primária (ou região 17 Brodmann): Estamos na região mais posterior do lobo occipital, também conhecida como V1. No caso de sofrer uma lesão nesta região, a pessoa seria incapaz de enxergar por que ela não poderia processar qualquer estímulo, mesmo que as suas retinas e seus olhos estejam em boas condições.

 

. Área visual secundária (Brodmann’s 18): Ela também é conhecida como V2. Aqui se encontra o córtex pré-estriado e o córtex inferotemporal. O primeiro, além de receber informações da área visual primária, também é responsável por estimular a memória. Ou seja, podemos associar estímulos visuais a outros vistos anteriormente. Por outro lado, o córtex inferotemporal nos ajuda a reconhecer o que vemos.

 

. Área visual terciária (19 de Brodmann): Também conhecida como V3, V4 e V5. Esta área recebe informações das estruturas anteriores. A sua principal função é processar cores e movimentos.

As muitas quedas que tomamos, os acidentes de trânsito e acidentes vasculares cerebrais, como também as infecções; são muitas das condições que podem causar uma lesão ou alteração no lobo occipital, inclusive, algumas destas lesões podem ser permanentes.

4.6 – Lobo Temporal:

 

O lobo temporal é a estrutura responsável pelo gerenciamento da memória. Fica localizado na parte lateral do cérebro. Os lobos temporais estão localizados na zona por cima das orelhas, tendo como principal função processar os estímulos auditivos. Os sons produzem-se quando a área bocasiva é estimulada. Eles também exercem as funções relacionadas ao pensamento abstrato e criativo, a fluência do pensamento e da linguagem, respostas afetivas e capacidade para ligações emocionais, julgamento social, vontade e determinação para ação e atenção seletiva.

A inatividade desta área cerebral, pode provocar um distúrbio comportamental que ocorre quando ambos lobos temporais (núcleos centrais), o esquerdo e o direito do cérebro não funcionam de forma adequada ou são removidos[14]. Este distúrbio é conhecido como Síndrome de Klüver Büker. Nela, os indivíduos perdem a capacidade de avaliar uma situação de perigo, ficam impossibilitados de apresentar sinais de medo ao serem confrontados com estímulos condicionados aversivos.

 

Conclusão

Como dissemos durante o transcorrer da apresentação e desenvolvimento deste artigo científico, a nossa intenção era, num primeiro momento, estudar e aprender mais um pouquinho sobre as partes internas do cérebro humano e a funcionalidade de cada uma delas. Mas, de forma mais específica, com a intenção de entendermos como se processa a interação e a funcionalidade entre cérebro e corpo. Principalmente, por sabermos que é do cérebro que partem os estímulos nervosos (suas ordens/mensagens) para serem executadas pelo nosso corpo (humano).

Com isso, escolhemos dividir o desenvolvimento do artigo em quatro tópicos ou partes, sendo assim apresentadas: 1. Precursores e pesquisadores do desenvolvimento humano. 2. Sigmund Freud e as Fases do Desenvolvimento Psicossexual. 3. Jean Piaget e a Teoria da Psicogênese e, por último, 4. A Fisiologia e a funcionalidade do Cérebro humano. Mesmo assim, não podemos esquecer, de que esta máquina humana chamada de cérebro, ainda é repleta de mistérios ou funcionalidades que, até então, são totalmente desconhecidas dos seres humanos, mas que precisam ser descobertas.

Num segundo momento, pretendemos com este artigo, sugerir para uma Instituição de Ensino Superior à Distância (EAD), inserir a produção de um artigo científico como uma das alternativas para a conclusão de curso (de Graduação ou Pós-graduação), onde o aluno poderá escolher entre o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) ou a escrita do Artigo. Lembrando que, tanto num quanto noutro, serão exigidos o uso e o emprego das normas técnicas, que são cobradas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

E, por fim, enviar este mesmo artigo, para tentar publicá-lo numa revista virtual (online), onde temos tido a honra de ter alguns artigos já publicados por esta revista.

 

 

 

Referências:

 

CECHIN, Andréa Forgiarini. Teoria Psicanalítica. Universidade Federal de Santa Maria. (material fornecido pelo Professor e Psicanalista Clínico Gilvandro Gomes Salles), 2015.

COZZER, Roney Ricardo. Hermenêutica e educação: uma proposta de formação educacional a partir da leitura popular da Bíblia. 1ª ed. Santa Catarina: Editora Santorini,2020.

FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1856-1939), Tradução de Paulo Dias Corrêa – Rio de Janeiro: Imago; 2002. (Versão eletrônica do livro “Crítica da Razão Pura”. Autor: Emmanuel Kant. Tradução: J. Rodrigues de Merege).

 

IPEMIG, Instituto Pedagógico de Minas Gerais. Material Didático do Curso de Pós-graduação em Dependência Química, Neurociência e Aprendizagem. Introdução a Neurociência. Belo Horizonte, Minas Gerais,2020-2021.

 

 

[1] Licenciatura Plena em Educação Física; Bacharelado em Direito, Pós-graduado em Direito Militar e Pós-graduando em Dependência Química e Neurociência e Aprendizagem.

[2] Decimus Iunius Iuvenalis. Foi um poeta e retórico romano, autor de Sátiras.

 

[3]Fonte: https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/saude/mens-sana-in-corpore-sano.htm (acesso em: 11/02/21).

[4] Trepanação. Fonte: https://noticias.r7.com/hora-7/fotos/trepanacao-a-historia-da-tecnica-que-furava-a-cabeca-para-curar-07092019#!/foto/1 (acesso em 12/02/21).

[5] Líquor. Também conhecido como líquido cefalorraquidiano (LCR). É um líquido límpido e incolor que preenche e envolve o cérebro e a medula espinhal e fornece uma barreira mecânica contra eventuais choques do crânio.

 

[6] Roney R. Cozzer, 2020.

[7] Cozzer, 2020.

[8] Fonte: https://www.10emtudo.com.br/artigo/biografia-de-jean-piaget/ acesso: 17.mar.21

[9] Fonte: https://blog.jaleko.com.br/corpo-caloso-o-que-e-e-para-que-serve/ (acesso em: 13/02/2021).

[10] Agenesia do corpo caloso. é uma má formação congênita que se caracteriza pela ausência (agenesia) do corpo caloso, com o aumento significativo dos cornos occipitais. Às vezes, nomeada de Disgenesia de corpo caloso, termo aplicado desde a agenesia total do corpo caloso (total ausência) à sua perda parcial, encurtamento ou ao desenvolvimento incompleto.

 

[11] Fonte: https://www.infoescola.com/anatomia-humana/lobos-cerebrais/ acesso em: 13/02/2021.

[12] Fonte: https://amenteemaravilhosa.com.br/lobo-parietal-funcoes-anatomia/ acesso em: 13/02/2021.

[13] Fonte: https://amenteemaravilhosa.com.br/lobo-occipital-estrutura-e-funcoes/ acesso em: 05/04/2021.

[14] Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_Kl%C3%BCver-Bucy (acesso: 05/04/2021).

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